A atriz paulistana Giulia Gam não quer mais saber de tempestades. Tranqüila e cheia de energia aos 38, evapora os traumas da disputa de guarda do filho com o ex-marido Pedro Bial, que virou lavagem de roupa em público, e volta com tudo dando banhos de atuação em dois filmes e em uma bem-sucedida peça de teatro
O PÚBLICO tem uma imagem equivocada da atriz Giulia Gam. Metade da culpa por este erro é da ficção. A outra é da realidade. Seus personagens a empurram para o estereótipo da mulher atormentada e neurótica — sobretudo depois da ciumenta Heloísa, da novela Mulheres Apaixonadas. Giulia a fez melhor que a encomenda do autor Manoel Carlos.
Tudo coincidiu com um desses momentos infelizes. O momento de Giulia, sabem todos, virou folhetim: mãe/atriz/desequilibrada disputa filho de dois anos com pai/jornalista/famoso. Esse enredo fez Giulia perder o ar de boa moça que surgiu no cenário artístico tão de repente — precoce, talentosa e bela a ponto de seduzir um Pedro Bial pautado para decifrá-la diante das câmeras do Globo Repórter.
O resultado da reportagem foi o menino Théo, hoje com 6 anos, e essa imagem um pouco distorcida da mãe dele. Giulia, no entanto, é outra pessoa. Nesta entrevista, demonstra uma qualidade que talvez seja a terceira culpada por esse engano: a coragem. Fala de tudo sem receio, sem fazer tipo.
Aos 38, sente que a vida lhe deu um banho. Melhor: a fez mergulhar na espontaneidade. Pode perguntar, ela responde. Sobre depressão: “Fiquei um tempo sem saber como recriar minha vida”. Sobre política: “Este governo é ruim para o teatro”. Sobre o futuro: “Adoraria ter mais filhos”. Em duas horas de conversa, no café do hotel onde está hospedada, ainda fumando bastante, apesar de várias tentativas para parar de fumar, a atriz fala de tudo.
Quem ainda preferir a Giulia de mentirinha pode assistir à peça Dilúvio em tempos de seca, escrita pelo ex-namorado, Marcelo Pedreira, em que faz uma modelo que “posa” para um escritor no banheiro da casa dele, durante uma tempestade que não pára. Ou então aguardar os filmes Árido movie, de Lírio Ferreira, e O passageiro, de Flávio Tambellini, suas mais recentes concessões à ficção. No primeiro, por acaso, Giulia está de volta ao tema da água: o filme, gravado no sertão pernambucano, denuncia a escassez de água no planeta. No outro, a atriz vive uma socialite carioca. Nada mais distante daquilo que ela realmente é.