A Raposo Tavares foi a estrada pioneira para os motéis brasileiros, nos anos 1960. V viaja pelo glamour perdido da Rodovia do Amor
RODOVIA DO AMOR. Para quem vive em São Paulo, este sempre será o apelido carinhoso da Raposo Tavares, paraíso dos amantes clandestinos. No entanto, a partir da capital, a SP-270 não é nada confortável. Truncada no início, com cara de avenidona lotada de irritantes lombadas, a estrada se arrasta para o oeste, quando pouco a pouco se acalma. As cidades se sucedem: Cotia, São Roque, Alumínio, Sorocaba, Votorantim, Itapetininga, Ourinhos, Assis, Presidente Epitácio... daí, ao cruzar o rio Paraná, vira estrada federal, entra no Mato Grosso do Sul e vai para Campo Grande.
Ali, o asfalto se divide em dois braços: um sobe reto para Cuiabá, outro quebra à esquerda até Corumbá e a fronteira com a Bolívia. São quase três mil quilômetros. A consagrada expressão Rodovia do Amor tem origem na década de 1960, quando a revolução sexual trombava o tempo todo com o puritanismo ainda vigente. Inspirados nos americanos, ousados empresários começaram a implantar no Brasil o moderno conceito de motelaria. Criativos, transformaram o tradicional hotel de beira de estrada, destinado a simples pernoite dos viajantes, em lugar de encontros amorosos.
Num tempo em que a Delegacia de Costumes metia medo — principalmente nos adúlteros —, a discrição era indispensável. Nada melhor, então, do que uma estradinha tranqüila, perto da cidade — mas longe o suficiente para evitar flagrantes desagradáveis.