Jegues do paraíso cearense de Jericoacoara, antes usados como fiel meio de transporte, são abandonados em detrimento de mototáxis e outros veículos — e ficam a ver navios
JERICOACOARA é um paraíso cercado de dunas por quase todos os lados. Em pleno século 21, aquele pedaço de céu na Terra só foi preservado porque, para se chegar lá, é preciso força. Não só de vontade. Física mesmo. O turista enfrenta 300 quilômetros de estrada, desde Fortaleza, em estrada de mão dupla, a bordo de um veículo 4X4, um dos poucos capazes de atravessar o mar de areia que protege a cidade.
São cerca de cinco horas de viagem. Os nossos primeiros colonizadores nem chegaram a conhecê-la devido ao difícil acesso. Muitos gringos que hoje a colocam na imprensa internacional como uma das cinco praias mais bonitas do mundo a desbravaram graças ao único — e primeiro —meio de transporte que pisou naquelas águas: o jegue. O poeta popular Patativa do Assaré resumiu no poema “Meu caro jumento” o apreço nordestino pelo animal: “ Você, meu caro jumento/ Foi quem teve a grande sorte/ O grande merecimento/ De servir como transporte/ Na noite desta fugida/ Defendendo a santa vida/ De Cristo Nosso Senhor/ Até no livro sagrado/ Seu nome está carimbado/ Mas ninguém te dá valor".
Bons tempos. Há cinco anos, quem desembarcou em Jeri foi a luz elétrica e transformou a bucólica aldeia de pescadores em um point com pretensões tão sofisticadas que esse
morador pioneiro está perdendo o direito ao seu hábitat. uma solução, o jegue agora é um problema para a cidade.
Como em todo o Nordeste, o animal perdeu completamente o status de patrimônio de valor que desfrutou no passado. Segundo Olavo Bilac, no livro Ironia e piedade(1926) houve um dia em que se colocava o jegue no seguro! “Não é verdadeiramente fim de século?”, perguntava ele. Hoje, o nordestino globalizou- se e, graças a módicas prestações, trocou o lombo do burro pelo de uma moto. O trânsito delas nas pequenas cidades lembra o das bicicletas na China. Em Itapipoca, a caminho de Jeri há ruas com até três concessionárias. O melhor emprego por lá é o de o mototáxi. No caso de Jericoacoara, o transporte é dominado pelos bugues, quase todos circulando com motores Volkswagen, de antigos Fuscas ou Brasílias.