Uma das regiões mais pobres do país, o Vale do Jequitinhonha (MG) esconde tesouros insuspeitados. Como o incrível artesanato de bonecos, que ganhou prêmio até da Unesco
É O TAL rio Jequitinhonha, colosso, que nasce num talhado de pedra em Serro, perto de Diamantina (MG), e anda 1 090 quilômetros pelo norte de Minas até morrer em Belmonte, no litoral baiano. Ainda parece indomado em alguns trechos de seu vale, onde gerou 80 cidades e fertilizou um território de quase 80 mil quilômetros e mais de um milhão de habitantes.
Agora, depois de séculos de assoreamento devido à mineração descontrolada e à devastação indiscriminada da mata ciliar e dos campos cerrados, o grande rio está morrendo. Não esconde mais a lâmina fina que revela a perda do volume d’água, os cascalhos lançados pelas dragas mineradoras, os bancos de areia que servem de praia aos mineiros sem mar.
Quem vê o leito quase seco não entende o significado de seu nome indígena, que significa “armadilha para pegar peixe”. O peixe está acabando, a água também, e sem ela não há vida. Desde os anos 1960, o Vale do Jequitinhonha, a mais pobre das regiões de Minas Gerais, é um lugar isolado e esquecido. A estradas estão em péssimo estado, quase não há indústrias e as poucas metalúrgicas e mineradoras não reinvestem seus lucros na região.
E o pior: provocam desmatamento, erosão e poluição hídrica. A paisagem é uma sucessão monótona de eucaliptos simétricos e fornos de carvão. Os eucaliptos roubam a água do solo, a agricultura se torna impossível. O jeito é migrar — mesmo que seja para ganhar uma miséria nas plantações paulistas de cana-de-açúcar.