De volta ao Brasil estreando teatro e comédia com Marco Nanini, o diretor Gerald Thomas vive
um momento delicado entre a ansiedade por novas peças e o combate à depressão. Mesmo
ainda abalado pelo 11 de Setembro, o escândalo na montagem carioca de Tristão e Isolda e
uma difícil revelação familiar, acha ânimo para metralhar Lula e Gil, atirar na monogamia e no
racismo, celebrar Glauber e Nelson — e contar à V sua experiência como motorista de ambulância
TODO MUNDO conhece o Gerald Thomas. Ninguém conhece o Gerald Thomas. As duas frases são verdadeiras quando se trata de um sujeito magrinho, branquelo, de cabelo permanentemente comprido, já colorido aqui e ali de branco. Um cara que se veste de preto e fala difícil, monta umas
peças metidas a intelectuais e vez em quando xinga alguém ou fala de sexo sem vergonha ou desnuda a genitália. Bom, este é o modo mais óbvio de rotular a figura, e talvez o próprio — ele já reconheceu — tenha alguma culpa na criação da persona.
Brincar com tipos e mitos está na cartilha da pop artà qual se filia Gerald Thomas Sievers, 51 anos, casado há três com sua primeira-atriz, a paulistana Fabiana Guglielmetti, nascido no Rio de Janeiro de pais judeu-alemães, criado em Londres, aclamado por espetáculos experimentais em Nova York e pelas óperas que monta na Alemanha. Thomas bebeu da fonte do tropicalismo até a última gota (literalmente — namorou o artista plástico Hélio Oiticica).
Confundir, não explicar, é sua arte: embaralhar códigos, inverter sinais da alta e baixa culturas, pintar a banana tropicalista com o noir kafkiano, colocar primeiro e terceiro mundo na roda, conjugar Beckett e Paulo Coelho na mesma cena, atacar o racismo viajando a Jerusalém às expensas de uma revista de celebridade...
“Não gosto de me definir, prefiro que o façam”, afirmou em conversa à Vlogo após um ensaio da nova peça — Um circo de rins e fígados, que estréia o novo teatro Sesc/Pinheiros, em São Paulo, tendo à frente um magistral Marco Nanini. Certo. Visto de perto, o indefinível Thomas é, contrariando a sentença de Caetano, bastante normal. Voltando ao Brasil depois de longa temporada londrina, abatido por noites de insônia, inseguro com a estréia de sua primeira “comédia linear”, fragilizado pelos oito quilos a menos que a depressão lhe trouxe — assim mostrou-se na sala Arthur Rubinstein, mantida pelo clube paulistano A Hebraica, onde ensaiava o novo espetáculo.
Não lembrava aquele incendiário iconoclasta a emergir por trás das névoas nervosas da boca-de-cena brandindo um cigarrinho. Sem fumar há seis meses, toma café feito desvairado, não almoça,
e, jura, o único esporte que pratica é o sexo — diário.