Escapamentos que viram bonecos, pneus que viram casas, caixas de papelão e carrocerias de caminhão tornados obras de arte. Nada se perde, tudo se transforma quando falta grana mas a criatividade sobra
ELES SÃO AUTÊNTICOS artistas populares, mas permanecem absolutamente anônimos. Dia após dia, seus trabalhos são vistos por milhares de pessoas, em plena rua, atingindo nível de audiência superior ao dos grandes museus. Contudo, eles próprios não valorizam o que fazem – nem ao menos se julgam donos de suas criações, assim como não conhecem o colega da outra esquina, companheiro de ofício. Não há textos sobre eles em jornais ou revistas e também não adianta buscar referências no Google: será um trabalho inútil. São ilustres desconhecidos.
Mas eles não esperam nada diferente. E enquanto trabalham embaixo dos carros, de maçarico nas mãos sujas de óleo e com cicatrizes das inevitáveis queimaduras de solda, volta e meia desenham na cabeça outra maneira original de encaixar uma nas outras as peças do escapamento velho que normalmente iria para o lixo.
Quando conseguem uma horinha de folga, transformam essa sucata em criaturas bizarras, surpreendentes: homens, mulheres, robôs, cachorros, girafas, panteras, músicos, operários, cangaceiros, dançarinas, crianças, quem sabe um dinossauro. Nas grandes cidades brasileiras, especialmente no Sudeste, não há quem desconheça essas esculturas, cartão de visita das oficinas. De longe, o motorista vê a figura esquisita e já sabe: ali se troca escapamento. O pedestre também olha, diminui o passo e não resiste a parar para observar mais de perto. E, de vez em quando um fotógrafo mais atento decide que precisa registrar aquele trabalho para mostrá-lo a um número maior de pessoas.