O ex-modelo, ex-segurança, ex-goleiro, ex-fotógrafo e ex-entregador de marmita Sérgio Cezar reinventa-se como o “Arquiteto do Papelão” — e leva suas “minifavelas” a museus da Europa e dos EUA
FAZ 18 ANOS que o carioca Sérgio Cezar, 45, brinca de casinha. Tudo começou por inspiração na figura do pai, seu Alziro, porteiro de um prédio em Laranjeiras, Rio de Janeiro. “Tinha que transformar as coisas para sobreviver. Assim, ele pegava armários que jogavam fora e os reaproveitava. Olhando, ia aprendendo como se fazia”, conta Sérgio, que, quando visitava os parentes na roça, em Cidade Macaé (RJ), observava os primos pobres tirando carrinhos de latas de sardinha: outra inspiração. Foi por bem pouco que Sérgio não se tornou artista plástico.
Antes, quando ainda entregava marmitas para dar uma força em casa, houve o sonho de ser jogador de futebol. Jogou no infanto-juvenil do Flamengo, nos anos 1970, time que viraria mito anos depois — foi o goleiro de uma formação que incluía Zico, Adílio e Tita, campeões do mundo em 1981. Mas o artista foi para o América, em 1976, e aproveitou os jogos internacionais do clube para conhecer museus na Europa. O sonho da arte se fazia à medida que o do futebol minguava.
O RIO QUE NÃO ESTÁ NO CARTÃO-POSTAL
Em 1980, Sérgio encarou Seu Alziro: contou que ia pendurar as chuteiras. “Meu pai quase teve um enfarto quando soube que meu contrato com o América tinha acabado. E que o que eu queria era ser artista. Arte pra ele era coisa de vagabundo”, relembra. Até se formar escultor, Sérgio se virou descolando um bico como segurança — é lutador de capoeira e tae kwon do — e acabou man in black da modelo Luiza Brunet. Das costas da maneca passou à frente das lentes, e
tirou uma grana pagando de bonitão — participou de editoriais de moda e comerciais ao lado de Monique Evans, Xuxa e Luiza Brunet — e também atuando como fotógrafo.
Ainda ganhava um troco tocando percussão pelos sambas da vida. Mas não eram essas as artes que buscava. A primeira exposição do autodidata foi na rua do Lavradio, em 1986 — à época,
trabalhava com argila, bronze e madeira. Quando o pai viu que elogiavam a arte do filho, tomou um porre de vinho e acabou mudando de idéia. O filho era um artista, não era um vagabundo.
O caminho estava liberado para a arte.