Saindo de Juazeiro do Norte, V atravessa o sertão cearense, o perigoso Polígono da Maconha, dribla curvas traiçoeiras e mulheres idem, até chegar em São Paulo, quatro dias depois, com um relato sobre o fervoroso universo dos caminhoneiros do Brasil
COMO PESCAR UM CAMINHÃO de 17 toneladas do fundo de um rio? Pescadores profissionais de surubim, mentirosos amadores, caminhoneiros, mototaxistas e civis à paisana em geral
matutam, matutam, matutam no final da tarde lesada de Belém do São Francisco (PE), aqui na região onde a fumaça verde anunciou, faz é tempo, como Polígono da Maconha. Menino como o diabo aos pés dos adultos. Palpitam, viajam, mas ninguém leva em conta. “Tem que descer lá embaixo, amarrar uma corda e pedir pro trator da prefeitura puxar”, diz um barrigudinho. “Vai cuidar dessas lombrigas, pirraia”, um velho ranzinza dá-lhe um cascudo, mas de leve.
O menino desconta com um chute, à vera, num dos vira-latas, que também parecem discutir, numa assembléia à parte, o destino daquele possante submerso. O caminhão despencou de uma das balsas que atravessam veículos, gente e bichos do território pernambucano para o baiano. A balsa remendada do velho Chico pendeu, descontrolou-se, o caminhão, carregado com 20 toneladas de pedra granito timbungou rio adentro, 20 metros, arrastando ainda duas motos. Um cabra ribeirinho morreu na tentativa de salvar sua bicicleta nova.
É chegada a nossa vez na balsa. O motorista José Caetano Filho, 44 anos, orgulhoso pai de cinco cearenses — dois deles caminhoneiros também — do município de Barbalha, enfileira a carreta de 22 pneus. Também está carregado de pedra, dez toneladas a menos do que o encalhado há uma semana. Saltamos na outra margem, município de Chorrochó (BA),
Abaixo, já na boca da noite. O motor geme na estrada de terra esburacada rumo a São Paulo. “Melhor na buraqueira que debaixo d’água, né?”, diz o caminhoneiro, no ramo há quase 30 anos.
“Alguém em casa reza por mim”, filosofa, como nos pára-choques das antigas, hoje praticamente extintos [ leia texto à página 59]. Esse alguém, “a nega véia querida”, atende pelo nome de Helena Araujo Silva. Ficou em Barbalha, no Cariri cearense, vizinho a Juazeiro do Padim Cíço, ponto de partida desta reportagem com muita poeira e asfalto. “Moro no mundo e passeio em casa”, solta outra máxima, queimando saudade e diesel a 20 km, 30 km por hora naquela vereda. Palitinho todo machucado no canto esquerdo dos dentes.