Há 30 anos, ele pegou em armas para lutar por uma vida menos ordinária. Hoje,
prefere empunhar um contrabaixo. Carlos Eugênio Paz, único dirigente da Ação
Libertadora Nacional que não foi preso ou torturado pela ditadura, volta à luta como
Inspiração do filme Cabra-Cega
NADA PODERIA ser mais diferente da imagem de um ex-guerrilheiro que
o sujeito que abre a porta. De bermuda, havaianas e camisa do filme Cabra-Cega,
um tiozão cabeludo convida a V a entrar em seu quarto-e-sala no Leblon sorrindo
francamente dentes amarelados de nicotina. Na sala, nada de pôsteres de Che Guevara — e sim muitos retratos de família. Nenhum Livro Vermelho de Mao — mas clássicos
de Graciliano Ramos, aliás, tio-avô do homem de bermudão. Com 1,85 metro e
uns 95 quilos, o grisalho de cabelos presos em um rabo de cavalo é um homem forte:
o aperto de mão mais parece compromisso que cumprimento.
Emendando um cigarro em outro, oferece uma poltrona ao repórter e vai preparar um café. Gravador ligado, escolhe cuidadoso as palavras ao contar sua história. Não é preciso ouvir muito para perceber que esta vida, cujos parágrafos são pontuados com curtos acessos de tosse e risos poderosos, daria um filme de responsa. Aliás, já deu: Carlos Eugênio Paz, alagoano de 54 anos, é a inspiração para o guerrilheiro que protagoniza o aclamado Cabra-Cega, de Toni Venturi. No filme, o militante clandestino Tiago, trancado num “aparelho” enquanto se recupera de ferimentos sofridos em ação contra militares,
se recusa a abandonar a luta, mesmo quando sua organização o obriga a deixar as armas.
Foi quase exatamente o que aconteceu com Carlos — aliás Clemente, seu nome de guerra entre 1966 e 1973, quando foi o único dirigente da Ação Libertadora Nacional a não abandonar a luta nem ser preso. Na época, o prêmio por sua cabeça era de US$ 1 milhão. “Infelizmente, esse dinheiro nunca foi pago”, brinca Carlos. Odiado pelos militares tanto por ser desertor do Exército (onde, por ironia, fez curso de antiguerrilha) quanto pela audácia — Clemente se fazia passar por policial ou soldado durante assaltos —, o combatente liderou dezenas de ações diretas e não ganhou um só arranhão.
Viu a mãe e a irmã serem barbaramente torturadas. Presenciou os assassinatos da primeira mulher e de muitos companheiros, por agentes da repressão. Percebeu como pouco a pouco sua organização era dizimada pela ditadura. Mas nunca desistiu. Porém, quando entendeu, já em Paris, que a ALN havia perdido a guerra, pediu asilo à França em 1973. Lá viveu até 1981, trabalhando como músico de jazz. Hoje, em sua terceira encarnação, casado com a pedagoga Thereza Mattos, Carlos combina a música com a militância no Partido Socialista Brasileiro, o que o leva com freqüência a Brasília. Gravou um disco de samba-jazz e escreveu
Viagem à luta armada (Civilização Brasileira) e Nas trilhas da ALN (Bertrand Brasil).
Ambos causaram impacto pela técnica literária e pela crueza: Carlos foi o primeiro ex-combatente a dizer com todas as letras que matou agentes da repressão. O homem
que trocou um rifle Fal por um contrabaixo Fender trabalha em A grande noite escura,
livro que aborda a difícil volta ao Brasil, e no roteiro de um filme que ele mesmo dirigirá, baseado no Viagem.
Enquanto criticava a política nacional e as atuações do seu amado Flamengo, Carlos recebeu a reportagem para um papo calorosa e cheia de lances imprevistos. Como quando detalha as ações perpretradas a bordo de inocentes Fuscas. A seguir, confira os trechos essenciais da conversa com o homem que nunca abandonou a luta e que, mesmo levando vida tranqüila, afirma: “Faria tudo de novo”.