Quem acha que o golfe só atrai a elite se engana: é praticado por 80 milhões no mundo e 20 mil no Brasil. V dá partida em um Golf e faz um giro pelos campos mais charmosos do país para entender o que vai pela cabeça dos loucos por este estranho esporte
NINGUÉM fica indiferente à palavra golfe. Se para muitos não passa de prática esnobe ou luxo inatingível, para os 80 milhões de praticantes espalhados pelo mundo (no Brasil ainda são 20 mil jogadores, em uma centena de campos), essa visão é um ilusionismo cultural que mantém os não-iniciados à distância de um dos jogos mais inteligentes, sedutores e difíceis já inventados. Nem é correto chamar essa legião de “praticantes”, visto que a maioria tem verdadeira adoração pela “paixão do difícil”, para usar a expressão do poeta irlandês W. B. Yeats. Afinal, é preciso treinar pelo menos seis meses em um driving range(centros de treinamento) antes de sair a campo, e, para ganhar solidez nas tacadas, ter mais dois anos de jogo.
Apesar disso, dizem as estatíscas que de cada dez que se iniciam no esporte só dois desistem.
Para desmontar as sutis engrenagens desse encantamento, a V entregou à fotógrafa e a este repórter um Golf para um tour por alguns campos paulistas. De posse dessa bela máquina
homônina, taqueira no porta-malas e hipnóticas pancadas eletrônicas de Fat Boy Slim vibrando nas caixas de som, colocamos o pé na estrada para nos divertirmos com o mais aristocrático
dos jogos. Primeiro fomos a dois driving ranges de São Paulo.
No Golf Center Interlagos, onde o praticante bate suas bolinhas tendo à frente a vista estonteante da represa do Guarapiranga, encontramos o executivo Ruy Nakada. Dono de um swing fluente, explica que a persistência foi tudo. “Anos de prática e trocas infinitas de equipamentos, algo tem de sair, né?”, provoca Nakada, após dar um belo tiro de 250 jardas com um taco de 400 dólares. Na baia ao lado, porém, havia um iniciante. Segurava o taco como se fosse uma enxada. Seus braços retorciam-se estranhamente, seus ombros estavam tortos, seus olhos se arregalavam e o taco batia pesadão no tapete, para só depois acertar a pobre bolinha.
Seria questão de tempo para ele se lesionar com gravidade. “Está se divertindo?”, provoquei. “Opa!”, exaltou-se, completando: “Viu só essa tacada? Cem metros!”. Primeiro mistério do golfe: não importa quantas tacadas erradas você dê — basta uma que levante a bola para deixá-lo feliz. O instrutor Carlos Castro, do FPG Golf Center, outro range localizado ao lado do aeroporto de Congonhas, explica esse fascínio. “O aluno já fez tantas coisas importantes — dirigiu empresa, escreveu livro, construiu prédio —, então, qual seria a dificuldade de cacetar uma bolinha?
Quando ele dá suas primeiras tacadas, percebe que golfe não é força bruta: é técnica, interação entre mente e corpo. No golfe tem um ditado que diz que você deve segurar o taco como se fosse um passarinho: não tão forte a ponto de matar o coitadinho, nem tão fraco a ponto de deixar o passarinho voar”, arremata, zen, o instrutor Jedi.