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O new york times mantém mais de mil obituários prontos, esperando que o desaparecimento de famosos os tire da gaveta. A seção de mortos do jornal é um relato sóbrio de vidas que se foram. Margalit fox é a mulher à frente desse trabalho sinistro. É ela quem decide se o morto merece a glória. Quer dizer, o times
Era uma manhã de terça-feira, quando Margalit Fox me recebeu na cafeteria do novo prédio do New York Times, em Manhattan. Brincos longos, calça branca e blusa preta, ela mostra a vista do 15º andar e brinca: "Oferecer um café daqui para uma brasileira é quase uma ofensa". Mas ao conversar com essa escritora - duplamente diplomada em lingüística, além de inglês e jornalismo, incluindo mestrados - ninguém liga para café. Repórter do jornal há 13 anos, Margalit está há três na sessão de obituários do jornal - antes, escrevia sobre livros. Este mês, inclusive, publica seu primeiro, Talking hands, sobre linguagem de surdos. Simpática, dinâmica e bem articulada, Margalit é casada com um também escritor. Vivem em Manhattan - e não morariam em nenhum outro lugar dos Estados Unidos. "A escritora Susan Sontag dizia que esta é a cidade mais européia da América do Norte." Margalit nasceu em Long Island, não longe daqui - seu pai era professor de física da faculdade local. Judia, mas não religiosa, conta que nem seu trabalho colaborou para uma espiritualidade maior. Não acredita em Deus, muito menos em vida após morte. "Puxei o lado racional-cartesiano de um pai cientista." Seu trabalho não a tornou mais beata. No entanto, mudou a forma como vê sua própria morte: "Espero ganhar um obituário no New York Times, dizendo que fui boa jornalista, justa e que, idealmente, eu tinha estilo".
Obituário não é anúncio pago. É um relato sobre a vida de quem partiu - algo que os americanos levam a sério, pois trata-se da última matéria a ser escrita sobre o morto. Até pouco tempo atrás, os obituários não revelavam a causa da morte. Mas havia fórmulas: "pequena doença" signi? cava ataque cardíaco. "Longa doença", câncer. Suicídio jamais era mencionado. Hoje menciona-se inclusive a AIDS. Recentemente, foi lançado nos EUA o livro Th e Dead Beat, de Marylin Johnson, sobre os "prazeres do obituário". Sim, diz-se que muita gente lê a página que anuncia quem se foi antes mesmo de ler as manchetes. Uma mistura de curiosidade com um pouco de sadismo: "Veremos quem morreu - sei que não fui eu". Há também os que vão checar se eles próprios não estão lá. Segundo Margalit, nunca se leu tanto esta página - e por duas razões: com a internet, cada vez mais gente têm acesso a elas. Além disso, aqueles que nasceram na época do baby boom estão envelhecendo. Ela diz que a sessão de obituário e a de esportes são as mais narrativas do jornal - no caso dela, é um conto sobre a vida de alguém, do berço à tumba. "Há um ditado judaico que diz por que Deus criou a humanidade. Porque Ele adora histórias."
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